Pilhas de roupa
Sobre tudo que empilho e escondo pelas beiradas da vida.
Troco de roupa no mínimo três vezes antes de sair de casa. Visto uma peça, detesto, jogo na cama; visto outra, odeio, jogo na cama. Sou indeciso e acredito que deveria comprar roupas novas, pois uma grande pilha de renegadas se forma antes mesmo que eu perceba. Quando retorno mais tarde, acendo a luz do quarto e me deparo com a bagunça realizada pela manhã. Faço o mais prudente: estico os braços, abraço a pilha e, cambaleando, a atiro na cadeira para liberar minha cama e poder deitar. De forma cíclica, no outro dia jogo tudo de volta à cama para sentar na cadeira.
Assim sigo minha vida tranquilamente, com as roupas entulhadas pelas beiradas do meu quarto. Ah, é só dobrar e guardar, os infelizes e amargurados dirão. Não é tão fácil. Parar para dobrar a pilha de roupa exige que eu tenha coragem de enfrentá-la. Sentar do lado dela e encarar peça por peça: a jaqueta que não ficou boa com aquele sapato, a calça cargo que um dia foi nova e agora está desbotada, a camiseta branca que está sempre amassada, o jeans que não cabe mais e ainda não quero descartar. Não, nem pensar, eu que não vou fuçar nisso. Que fiquem jogadas ao canto!
Mamãe disse que o quarto da gente quer dizer como está nossa vida. Seguindo essa visão, a minha está cheia de pequenas pilhas deixadas conscientemente de lado. Pensamentos empilhados, desejos empilhados, conversas empilhadas… É costume antigo evitar aquilo que não quero enfrentar.
Se derrubo um lápis no chão, não o pego por preguiça de abaixar. Então ele escapa, nos próximos dias, do meu campo de visão — não no sentido literal, mas psicológico, porque, de certa forma, o ignoro com tanta força de vontade que mal o enxergo. O lápis jogado ao chão desenvolve a habilidade de tornar-se invisível e não me incomoda por um bom tempo.
Ah, queria mesmo dizer que é desleixo, mas considero superpoder. Dessa maneira consegui em meus vinte anos fugir de responder perguntas cujas respostas não queria expor. Sou mestre em florear assuntos, em jogar os que não quero para o canto. Até hoje, nenhum daqueles que passaram por minha vida conseguiu ver tudo o que em mim existe. Todos me veem já arrumado, com cheiro de amaciante, com o all star da mesma cor que a jaqueta, e não imaginam as tantas peças horrendas que tenho amontoadas.
Despir-me da roupa que escolhi para lhe ver é fácil, talvez encontre um corpo por baixo disso tudo. Aquilo que se esconde em outro plano, porém, aquilo que deixei pelas beiradas do meu ser, nunca outro alguém contemplará em plenitude. Entendo o mistério do Deus que não quis mostrar sua face aos homens, pois também eu nunca quis me revelar, deixando como incógnita, até para mim, o entendimento das minhas nuances.
Se há vantagem nesse esconder, atesto que sim, pois a maioria das pessoas não tentam invadir o seu íntimo para fuxicar. Mas, uma hora ou outra, acontece algo que faz as pilhas voltarem a ser notáveis — e é sempre doloroso voltar a enxergá-las. Recordo bem a última vez que aconteceu… Estava na casa de um amigo, jogando conversa fora, sem imaginar o que em mim seria desnudado. Quanto mais ele falava, mais queria vasculhar minhas esquinas, podendo fazer com que um de nós dois esbarrasse, a qualquer momento, em alguma pilha. Soando frio, temendo cada frase com medo do lugar inóspito que chegariam, reagi tentando dissociar, ficando em silêncio e olhando vagamente para o ambiente… Até que reparei algo inusitado: não havia em nenhuma extensão da casa uma peça de roupa jogada pelos cantos. Pelo contrário, só minha jaqueta preta estava prestes a tombar do braço do sofá. Inferno… Só eu escondia algo, só eu estava deixando a jaqueta jogada no sofá.
Aquilo foi o bastante. De madrugada, ao voltar para meu quarto, sentei no chão e encarei a monstruosa pilha de roupa; estava destinado a enfrentá-la, por mais difícil que fosse. Mas, já que sou homem-bicho que se nega a sair da caverna de Platão, nem naquela noite, nem nas seguintes, consegui. Eu, que apago as luzes para não ver minha própria bagunça, sou agora obrigado a forçar a vista e ver com claridade as pilhas largadas por minha curta existência? Luto contra a cura da minha cegueira, contra a solução dos meus problemas… De onde, enfim, virá a coragem para tirar as pilhas da borda da vida e colocar nos manequins das vitrines?


AI, PELO AMOR DE DEUS, QUE TEXTO FOI ESSE? cada palavra parece ter sido escolhida a dedo para atravessar o âmago da alma. é daqueles textos que ficam ecoando depois que acabam. tua escrita é muito linda, ave maria. não passa pelos olhos; passa direto pelo peito.
você é brilhante, Nathan! mais um texto incrível.