Torta de limão
Entre o doce e o azedo da paixão.
Espreme o limão. Quebra a bolacha. Faz o merengue. Esta era a promessa daquele dia: torta de limão. Ele já tinha comprado os limões quando me disse:
— Comprei para fazer uma torta, eu amo doces com limão.
— Percebi pelo sabor do whey — respondi apontando para a embalagem no canto da pia.
— Eu não sei se o que me atrai é o cítrico…
— Acho que é a mistura do doce com o azedo.
Nossa relação agora era doce, mas logo se tornaria azeda. E eu já sabia disso.
— Talvez seja, sempre escolho esse sabor para tudo. Quer fazer comigo a torta?
— Acho melhor não, nem vai ficar pronta antes de eu ir.
— Relaxa, eu como por você amanhã — me provocou.
— Vai demorar… deixa pra outro dia.
No meu celular, o aplicativo da Uber estava aberto, mas eu não queria clicar no botão para pedir um carro. Era como se algo nele me fizesse querer ficar e comer torta de limão. Bem que eu realmente queria fazer a torta, assim teria uma desculpa para passar mais tempo lá. Porém, estava tarde e eu precisava muito ir embora. No outro dia teria que arrumar as malas para passar uma semana fora de casa, ele nem fazia ideia disso. Mas eu sabia que ele tinha uma prova importante da faculdade, e me preocupava. Como alguém em tão pouco tempo já tinha feito eu me importar tanto?
— Você vai chamar o Uber?
— Vou.
— Não quer fazer a torta?
— Não posso.
— Então chama, ué.
— Não quero.
— Se for ficar, vamos fazer a torta.
— Não inventa, já chamei.
A cada instante que o carro se aproximava, menos eu queria ir. Mas se ficasse teria que chupar o azedo do limão. Não poderia só experimentar o doce daquela paixão, teria que sentir todo o azedo sem fazer careta. E eu não estava pronto, talvez nunca estaria.
Naquele curto instante de três minutos em que o Uber chegava, tudo e nada aconteceu. Eu lembrei da nossa risada que se completava e do sorriso dele que me fazia sorrir. Lembrei de tudo como se fosse passado distante, algo que tinha acabado de acontecer. Toda a nossa história se construiu ali, com música genérica e desejo por torta de limão. Agora essa curta história estava por um triz de se destruir, pois o carro estacionaria a qualquer instante.
— Quanto tempo? — Ele me perguntou.
— Três minutos.
— Dá para fazer muita coisa em três minutos.
Apenas gargalhei. Três minutos era pouco para caber tudo que eu planejava.
Já não havia jeito: estávamos caminhando em direção ao nosso fim. Anteriormente, andamos por aquele mesmo estacionamento de prédio, mas para um começo. E agora, caminhávamos para um final. Como o sol que nasce pela manhã e depois põe-se trazendo a escuridão, nosso dia terminava para nunca mais acontecer. O portão se aproximava a cada passo, suas grades podiam recordar uma prisão. Eu estava sendo preso ou solto?
— A gente não fez mesmo a torta — tentei quebrar o gelo.
— Faremos da próxima vez.
— Próxima…?
Nesse instante, agradeci e entrei no carro. Estava tão embebido por suas palavras que nem imaginei que poderiam ser mentiras. Cada metro que me distanciava do seu prédio, mais se findava aquela paixão, mais ele ia se tornando apenas uma memória, uma saudade, um desejo por torta de limão.
Não teve próxima, nunca fizemos nossa torta. E passado o dia doce, fiquei só com o azedo do limão.




Você conseguiu fazer tortas de limão uma coisa triste... desgraçado!
Passada! Amei!! E a sementinha do mal tbmm