Literatura de sufoco
A instigante escrita de Lygia Fagundes Telles em Antes do Baile Verde.
Os dicionários definem sufoco em três palavras: inquietação, aperto e urgência. Aplicando o termo às situações reais de uso, observa-se o sufoco-inquietação de quem não dorme à noite pensando nas palavras más que proferiu durante o dia, o sufoco-aperto da mãe de família que recebe muito pouco para sustentar a casa, o sufoco-urgência daquele que está em uma situação perigosa e pede socorro.
A meu ver, sufocante é o instante que barra a respiração, que inquieta, aperta e pede urgência de solução. É o que as pessoas que se afogam fazem por instinto de sobrevivência: vendo-se sem apoio, debatem-se como se o fossem encontrar, em um desespero que os afunda cada vez mais.
Uma vez fiz a proeza de ir ao mar sem saber nadar. Uma jangada me levou para conhecer os lindos corais, mas eu não fazia ideia de que mergulharia sem ter um chão para me apoiar. Quando o barquinho parou, disseram para apenas pular na água, o colete salva-vidas me faria boiar sem preocupação. Mas assim que o fiz, debati-me desesperadamente. Não havia estabilidade, não havia onde me escorar, meu corpo não conseguia se adaptar rapidamente àquela situação perigosa. Foi sufocante.
Em maior grau devem ter sentido tal sentimento aqueles que estavam no avião em que a turbina explodiu ao decolar de Congonhas. Olhar pela janela e ver as faíscas e o fogo ao seu lado. E o chão lá embaixo, muito abaixo. As pessoas gritando, suplicando por vida, não se resignando à morte. Sufoco. Por mais que tenham se salvado graças à ação rápida do piloto, não consigo nem imaginar a angústia passada por esses passageiros.
Tanta tentativa do autor em explicar o conceito de sufoco é por encontrá-lo diluído dentro da literatura. Entre diálogos intercalados por pensamentos conflituantes, elipses as quais não temem mostrar que algo escondem, e personagens carregados de ambiguidade, roubo as palavras do posfácio1 de Antes do Baile Verde para definir a escrita de Lygia Fagundes Telles: sufocante. Alguém que coloca em circunstância de fragilidade quem é apenas o espectador da sua narrativa, só pode ter uma habilidade grandíssima de transtornar o leitor.
As 18 histórias reunidas em Antes do Baile Verde possuem diversidade temática ao mesmo tempo que se assemelham em estrutura narrativa. Longe de me propor perpassar conto por conto ou realizar uma análise literária, penso que descrever o tom sufocante da ficção de Lygia já é o bastante para evidenciar sua astúcia narrativa. E, antes de continuar, já aviso aos desatentos: estou traçando o mais alto elogio ao evidenciar essa característica.
Estranheza é uma ferramenta literária utilizada por grandes autores — sinto até que a falta dela é o motivo de ser tão pobre a literatura de massa, a qual visa agradar o leitor a todo custo só para tornar-se best-seller. O desconforto é a forma de tocar no que há de mais humano e íntimo do homem. Por isso, a honra da autora em ter a escrita comparada a de Machado de Assis não é em vão: ela usa e abusa de uma ironia refinada que mexe os pauzinhos pelo oculto da linguagem, que se escora entre os vãos dos sintagmas provocando sensação de incompletude.
O próprio fato de os nomes das personagens não serem revelados nos primeiros parágrafos dos contos já assusta. A nomeação se esconde no interior da narrativa, instigando a curiosidade e nos pressionando a aguardar para preencher as lacunas de sentido causadas pelo texto.
Não se lê Lygia confortável. É tentar se debruçar em um muro que não existe, não há promessa de estabilidade. O leitor principiante abre o livro com Os Objetos e se constrange: o que eu li é o que eu li? E a pergunta se arrasta pelos outros contos até se unir ao pensamento das próprias personagens: o que eu vi é o que eu vi?
Contos como Verde Lagarto Amarelo — vulgo o diamante da coletânea — trazem uma prosa de apreensão, com diálogos e flashbacks entrecortados, formando no imaginário uma tensão de que algo impactante acontecerá. Desesperados, procuramos respostas para perguntas que nem foram feitas, apenas supostas.

Como a autora tem esse poder? Articula a narrativa e a linguagem a ponto de nos fazer pensar que uma conversa entre dois irmãos é uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer instante. Que algo terrível interromperá o diálogo dos amantes em A Chave, A ceia e As pérolas. Que um saxofone em O Moço do Saxofone não deve ser só um saxofone, não é possível que seja só isso. Que a morte chegará e dará fim ao mistério em Antes do Baile Verde e Natal na Barca. Parece prometido algo impactante pelas entrelinhas e o final subverte a expectativa: nada de mais acontece, tudo permanece inconclusivo. Somos enganados não só uma, mas várias vezes. Que pilantragem!
Mas, para ser justo, a promessa imposta se concretiza em algumas narrativas e espantam justamente por colocar em prática o horror prenunciado pelo subtexto. Venha Ver o Pôr do Sol é o maior exemplo de tal feito. Inacreditavelmente, o diálogo confuso entre duas personagens, que até então tinha sido acordado que nunca daria em nada, direciona-se ao aterrorizante e rompe com o expectado de maneira sarcástica.

Se transmutássemos esta literatura para a sétima arte, e estivéssemos em uma sala de cinema contemplando essas histórias, certamente nos sentiríamos angustiados como o garoto de O Menino, com sua mãe traindo seu pai ao lado e a moça da frente impedindo a visão da tela com seus cabelos espalhafatosos. O mundo interior ameaçando se despencar enquanto o exterior é tomado por uma névoa. Somos deixados da mesma maneira: a autora não permite que tudo vejamos, resta-nos tatear no escuro torcendo para encontrar algo por entre as pistas linguísticas ofertadas.
De qualquer forma, paralisado se fica diante da genialidade ficcional da dama da literatura brasileira, de modo semelhante ao rapaz que observa atônito o quadro selvagem em A Caçada. Ah Lygia, como põe o seu leitor a correr ofegante entre verdes árvores, debater-se com as lascas delas e pisar em pedregulhos descalço? E sem ao menos saber de quem se está fugindo, ou de quem se está indo atrás. Se fecha o livro e ainda não se compreende: sou a caça ou o caçador?
Inquietação, aperto e urgência resumem a experiência de ler Antes do Baile Verde. Uma leitura agradável passa batida pela vida do leitor, mas a leitura sufocante o pressiona a se contorcer e pedir por mais. Felizmente, caímos na armadilha lygiana.
Deixo um especial agradecimento às minhas amigas do Substack, pois deram-me o empurrão necessário para adentrar no universo da autora e me apaixonar.
Nos vemos em breve por entre as palavras!
Termo utilizado por Antonio Dimas, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo, no fascinante posfácio da edição de Antes do Baile Verde publicada pela Companhia das Letras.






Penso que talvez sufoco não seja apenas a sensação de viver algo extremo. É viver algo que excede a palavra, toca fundo, aperta por dentro e ainda não encontrou linguagem suficiente para ganhar contorno
A Lygia consegue revirar tudo dentro da gente. É, por vezes, nauseante, é desconfortável e de tirar o fôlego. Lembro da primeira vez que li uma obra dela e fiquei extasiada! Uma das coisas que mais me encanta na literatura lygiana é como ela eleva o cotidiano, o normal, a esfera do ilógico. É surreal!
Bela resenha, Nathan!🤍✨